Classificação Tipográfica: parte I

Desde que publiquei no Issuu o trabalho sobre tipografia de uma cadeira da faculdade, tenho recebido muitos bookmarks e até avaliações e comentários positivos, além de uma singela citação em um blog português. Imagino que isso signifique que haja uma certa demanda por esse tipo de informação, então, nas próximas sextas-feiras vou publicar aqui um post sobre classificação de tipos. Na verdade, minha proposta vai ser aprofundar o trabalho da faculdade, colocando mais espécimes e tentando achar mais informações – em português, sempre que possível, mas me lembro que maior parte dos recursos estava em inglês ou francês, com alguma coisa em espanhol.
Abrirei o primeiro post do assunto falando sobre algo que foi difícil de compreender na época do trabalho: os métodos de classificação. pode parecer bobo, mas a coisa toda não é muito padronizada, e em termos de material acadêmico achei muito pouca informação. Minha primeira inclinação era seguir a Grande Bíblia (aka Elementos do Estilo Tipográfico) do Robert Bringhurst, mas, lendo a passagem sobre classificação, os conceitos ficam um pouco difusos, por causa da hippongagem do autor – e não entendam isso no mau sentido: bringhurst é o cara, mas o jeito totalmente lindo e poético dele tratar os tipos às vezes atrapalha.
Então, um pouco pela Ellen Lupton e muito pelo Johno do ilovetypography.com, cheguei na classificação Vox-ATyPI.
Classificação Vox-ATyPI
Tudo começou com o tipógrafo e pesquisador francês Maximilien Vox, que em 1954 criou um sistema que classificava todos os tipos em 9 grandes categorias: humanistas, garaldes, transicionais, didones, egípcias, lineares, cinzeladas, cursivas e manuais. Alguns anos depois, no final da década de 60, a ATyPI (Association Typographique Internationale), adicionou duas categorias: fraktur e não-latinas. Nos próximos posts irei falar de cada um desses grupos de uma forma mais aprofundada.
Na minha opinião, essa classificação tem pontos positivos, como a organização principalmente histórica das fontes – e a época em que um tipo é feito diz muito sobre ele. Também, discordo totalmente do Paulo Heitlinger, que neste artigo diz que os benefícios da classificação de tipos são quase nulos e não são de forma alguma práticos – com o volume sempre crescente de novas fontes, é necessário algum tipo de metadado em cima delas, que possa dizer, a priori, algo sobre ela, sem que você precise ficar passando uma a uma das opcões. Na verdade, como designer, tenho certeza de que meu trabalho seria consideravelmente mais difícil se sempre que quisesse procurar algum tipo novo para um trabalho tivesse que procurar pela minha biblioteca pessoal ou por sites como o Myfonts sem poder recorrer a alguma informação como “fonte serifada, mais ou menos parecida com a garamond”. E, como a classificação tem suas categorias fundamentadas em características históricas, pode fazer mais sentido (conceitualmente falando) escolher o revival digital de uma humanista do que uma linear grotesca para diagramar um livro sobre música profana (ou seja, música não-sacra pré-renascença). Um exemplo um pouco mais prosaico pode ser encontrado no fórum do typophile.
A classificação Vox-ATyPI é atualmente a mais usada – o que, na verdade, não significa tanto assim, pois voltando ao meu problema no início do trabalho, a maior parte das publicações usa métodos diferentes entre si e que fazem pouco sentido quando justapostos. O curioso é que frequëntemente esses métodos são na verdade derivações: por exemplo, a Ellen Lupton, no Pensar com Tipos, por exemplo, mostra vários tipos de fontes e as classifica a grosso modo seguindo períodos históricos, citando tipos humanistas e a relação deles com o corpor, seguidos por uma abstração que cresce até chegar em fontes “deformadas” como Didot, Bodoni e Clarendon. O British Standard 2961 (BS 2961:1967) é outro exemplo, também muito similar á classificação de Vox.
Catherine Dixon
Em 2002, no entanto, em um artigo científico, a historiadora de tipografia Catherine Dixon trouxe à tona um fato: o sistema que, essenecialmente, é o mais usado internacionalmente, tem mais de 40 anos de existência e não foi atualizado desde 1967. Além disso, o foco ficou em uma parcela consideravelmente pequena das fontes existentes: tipos de texto para línguas latinas, com raízes romanas. Temos uma categoria para garaldes e uma categoria para transicionais, mas as diferenças entre elas é de uma sutileza bastante grande – na verdade, durante a pesquisa, achei autores que classificavam a Caslon como garalde e outros que a classificavam como transicional, para citar apenas um exemplo. Já as fontes sem serifa são todas agrupadas em um grande termo guarda-chuva de linear, dentro do qual são inseridas algumas subcategorias – cursivas e manuais passam pelo mesmo problema, mas sem sequer as subcategorias. E, por último, uma das atualizações feitas pela ATyPI, coloca todos os tipos de culturas diferentes da ocidental judaico-cristã sob o o grupo não-latinas; ou seja, ficam juntas fontes de caracteres árabes, círilicos, gregos, japoneses, chineses e por aí vai.
Dixon, após fazer a crítica, expõe os argumentos de uma categorização baseada em origem histórica (renascença, iluminismo, art nouveau, por exemplo), características formais (modulação do traço, forma, proporção, dentre outros) e padrões (agrupamentos por similaridades de entrecruzamentos de origem com características formais). Ela ainda montou um diagrama explicando a categorização de uma fonte específica, que estou postando aqui – particularmente, a qualidade da imagem é meio ruim e o diagrama em si muito complexo, mas ainda assim válido como tentativa de expressar visualmente o sistema. Infelizmente, não achei nada mais sobre ela na internet, nem nenhum artigo de outra pessoa desenvolvendo mais a idéia, que a ela própria comentava estar ainda imatura.
Então, isto fecha a primeira parte da classificação tipográfica. Na próxima sexta irei postar sobre tipos fraktur ou blackletter, que aqui no brasil são às vezes chamados de góticos – algo particularmente confuso qando você vê que gothic é quase sempre atribuído a tipos sem serifa (News Gothic e Franklin Gothic, por exemplo), motivo que me leva a não querer usar a palavra nem para um nem para o outro tipo de fonte.




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