Tentativas

Broadstairs Sea Pool, Isle of Thanet, Kent, 2002  – foto por Jason Orton

 “These remind us that human cultures are sedimented and that both archaeology and architectural history put fascinating and convincing form to earlier social arrangements and structures, even though modern capitalist development seeks to wipe most evidence of the past clean.” 

Esse é um trecho de um dos últimos artigos do Design Observer, que falava sobre uma construção chamada tidal pool, similar a uma piscina, mas feita na beira das praias e que segurava a água salgada mesmo depois da maré recuar – bizarro isso, não? Me chamou a atenção o trecho de cima, que lembra muito o que os professores falavam no Procedência e Propriedade sobre os “desenhos que ganham história”. História não no sentido de se tornarem narrativos (acho que diríamos estória, se quiséssemos ressuscitar a palavra) mas no sentido de servirem como registros das tentativas de desenhar o objeto, e com isso adquirirem um valor que, até pelo fato de ser acidental, de ser algo que nós não desejávamos ter feito daquela forma, não prevíamos e provavelmente nem teríamos como prever. 

Especificamente, me lembro de dois casos: um, de um desenho de uma das colegas, em que duas coisas me chamavam muita atenção;  um semi-círculo maciço de preto, desenhado provavelmente de um golpe só com grafite em pó e óleo de linhaça, e as várias linhas que esboçavam tentativas de fazer esse mesmo semi-círculo. Até agora, meses depois da experiência, ainda tenho aquele pedaço, ou a lembrança dele, muito vívido na memória.Havia naquele desenho não só o resultado de várias tentativas, mas também o processo, um pequeno registro de cada uma dessas tentativas. A outra era de um dos professores, o Eduardo Berliner, mostrando uma camiseta cuja estampa ele tinha desenhado e falando, com um certo orgulho, que a mão de uma das crianças do desenho havia sido desenhada três ou quatro vezes, uma em cima da outra, e que ele não tinha achado necessário apagar.

É claro, acho que pra qualquer pessoa que se preocupou em fazer um desenho (ou seria Desenho?) ao invés de uma ilustração, isso não é surpreendente ou novo, mas, ainda assim, sempre que eu penso nisso fico espantado e sinceramente maravilhado. Até hoje, sempre que vou fazer qualquer coisa, sinto um medo absurdo de errar, ou seja, não conseguir fazê-la direito ou tão bem quanto eu acho que deveria conseguir fazer. Isso desde um desenho até escrever um poema, o post de um blog, a monografia ou fazer um layout de um site. Ignorando completamente, e de forma meio burra, que no processo de criação de qualquer coisa interessante há sofrimento, ou gasto tremendo de energia, pelo menos.

E, bem, essa frase me fez perceber isso mais claramente de novo. Deixando de lado, por agora, toda a discussão sobre o capitalismo moderno, parece que nós estamos sempre querendo apagar nossos erros, ou as coisas que olhamos e vemos como erros, sem perceber que são muitas vezes eles que transformam algo medíocre em algo verdadeiramente interessante. As marcas dos nossos erros, quando ficam presentes, evidentes ou não no resultado final, transformam o que quer que estejamos fazendo em algo assumidamente humano, e justamente por causa disso algo com que uma outra pessoa pode se relacionar.

2 comentários

Allan

05.05.2009 – 14:05

muito bom o texto. Fez relembrar muita coisa. rs abs

macki

06.05.2009 – 17:05

gracias =)
desculpa a demora na resposta – monografia iminente =P

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